Abstract
A Base Nacional Comum Curricular considera que os educandos da educação básica devem aprender a utilizar a linguagem escrita como forma de interação, nos diferentes campos de atuação da vida em sociedade, estimulando o protagonismo e a participação na cultura letrada de forma autônoma. Sem o aporte de uma formação continuada para o professor, o livro didático se investe do papel de bússola da prática em sala. Para satisfazer a essa demanda, contribuem orientações de livro didáticos de Língua Portuguesa indicados a professores e alunos, razão por que é necessário questionar que perspectivas teóricas fundamentam o ensino da escrita nesses materiais didáticos. Para tanto, este artigo analisa as perspectivas teóricas mobilizadas pelas tarefas de produção textual escrita presentes na coleção Se liga nas linguagens, adotada no Ensino Médio brasileiro, sendo, inclusive, utilizada pelas escolas do município de Caraúbas, Rio Grande do Norte. A investigação articula quatro tradições teóricas da escrita (cognitiva, linguístico-textual, sociossemiótica e sociocultural) que servem de base para a categorização das atividades. O estudo utiliza uma abordagem metodológica mista: qualitativamente, emprega-se a análise de conteúdo para identificar e descrever os critérios associados a cada perspectiva teórica; quantitativamente, aplicam-se o teste Qui-quadrado e a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) para examinar padrões de ocorrência e coocorrência entre os critérios. Os resultados evidenciam que as tarefas não mobilizam critérios de modo aleatório, mas seguem configurações sistemáticas e estatisticamente significativas. Observa-se predominância das perspectivas linguístico-textual e cognitiva, enquanto as dimensões sociossemiótica e sociocultural aparecem de maneira menos frequente, mas formam agrupamentos conceitualmente coerentes. A discussão aponta como essas regularidades teóricas estruturam o ensino de escrita no material analisado e sugere implicações para práticas pedagógicas e para a avaliação de livros didáticos. Além disso, essa composição aponta para o fato de que os conhecimentos que a linguística tem construído ao longo do tempo estão se acumulando, não sendo substituídos a cada novidade.