Abstract
O artigo analisa como a juventude é classificada e representada no campo da saúde no Brasil, discutindo a centralidade ainda exercida pela adolescência como referência para políticas, produção de conhecimento e práticas de cuidado. Trata-se de estudo analítico-documental, de abordagem sociológica, que articula literatura sobre juventude e saúde, marcos normativos e evidências secundárias selecionadas do Panorama da situação de saúde de jovens brasileiros, dos dois primeiros Informes Epidemiológicos da Agenda Jovem Fiocruz e de estudo recente sobre a superposição entre estudar, trabalhar e cuidar. Propõe-se a noção de desencaixe institucional para designar a distância entre a consolidação político-jurídica da juventude como população de 15 a 29 anos, a diversificação das trajetórias sociais nesse intervalo e a permanência de enquadramentos sanitários historicamente organizados em torno da adolescência. As evidências epidemiológicas mobilizadas mostram que necessidades e exposições se reconfiguram depois da adolescência; confrontadas com a análise documental, essas diferenças dão suporte à interpretação do desencaixe institucional, sem estabelecer uma relação causal entre a organização do setor e os padrões de adoecimento observados. Argumenta-se que ampliar o olhar sobre a saúde da juventude requer incorporar a condição juvenil, a determinação social do processo saúde-doença-cuidado e o reconhecimento dos jovens como sujeitos de direitos, preservando a relevância das políticas de adolescência sem tomá-las como sinônimo de juventude.