Abstract
O artigo analisa a centralidade da bandeira anticorrupção na política brasileira, mostrando como seu uso recorrente, desde a República de 1945 até os dias atuais, se tornou um recurso estratégico de oposição e um poderoso instrumento de deslegitimação política. A narrativa percorre episódios históricos – de Vargas e JK a Collor, do Mensalão à Lava Jato – para demonstrar que o discurso anticorrupção, longe de ser anômalo, constitui um valence issue, acionado em diferentes conjunturas por distintos atores. O texto argumenta que a inovação recente foi o protagonismo inédito do sistema de justiça, fortalecido por reformas institucionais impulsionadas pelos governos petistas, o que deslocou o combate à corrupção do campo político para o jurídico-criminal. Esse processo, somado à tentativa de Dilma Rousseff de incorporar a pauta como marca de governo, acabou fragilizando sua coalizão e contribuindo para a crise que resultou no impeachment, na prisão de Lula e na eleição de Jair Bolsonaro. Conclui-se que a instrumentalização da anticorrupção, ao invés de regenerar o sistema político, aprofundou a instabilidade democrática e abriu espaço para projetos autoritários.