Abstract
A organização de um dossiê temático dedicado aos Processos Matemáticos da BNCC na Prática Docente justifica-se por múltiplas razões de ordem epistemológica, curricular, formativa e política.
A BNCC completa mais de meia década de vigência, e, no entanto, persiste um distanciamento significativo entre o que o documento prescreve e o que efetivamente ocorre nas salas de aula de Matemática. Os processos matemáticos como resolução de problemas, investigação na sala de aula, modelagem matemática, comunicação e argumentação são frequentemente interpretados como "metodologias" acessórias, e não como dimensões constitutivas do conhecimento matemático. Este dossiê temático oferece espaço qualificado para investigar esse hiato, compreendendo suas causas e apontando caminhos de superação. Sem esse esforço analítico, corre-se o risco de que a Base se torne mais um documento arquivado do que um referencial vivo para a prática.
Embora a BNCC confira centralidade aos processos matemáticos, a literatura educacional brasileira ainda carece de produções que os tomem como objeto privilegiado de investigação. Há abundância de estudos sobre habilidades, competências específicas e unidades temáticas, mas escassez de trabalhos que aprofundem o que significa, por exemplo, argumentar matematicamente na Educação Básica, ou modelar em contextos de vulnerabilidade social.
É fato que professores de Matemática em todo o país têm desenvolvido experiências significativas com os processos matemáticos da BNCC, mas muitas permanecem invisibilizadas, restritas ao âmbito escolar ou a relatos informais. Assim, este dossiê temático também cumpre a função de dar visibilidade, sistematizar e socializar essas práticas, transformando-as em conhecimento público e reutilizável. Ao fazê-lo, valoriza o protagonismo docente e cria referenciais concretos para outros professores que buscam ressignificar suas aulas.
É mister enfatizar que a formação de professores de Matemática ainda enfrenta o desafio de preparar docentes capazes de trabalhar com os processos matemáticos de forma integrada e intencional. Muitos cursos de Licenciatura ainda priorizam o domínio de conteúdos abstratos em detrimento da compreensão dos processos de produção do conhecimento matemático. Assim, este dossiê temático apresenta à comunidade da educação matemática artigos que buscam articular pesquisa, formação e prática oferecendo subsídios valiosos para repensar currículos de formação, propor sequências didáticas e desenvolver competências profissionais docentes alinhadas à BNCC.
Diante de todo o exposto, a Revista Baiana de Educação Matemática (RBEM) tem a satisfação de apresentar ao público leitor o presente dossiê, intitulado Processos Matemáticos da BNCC na Prática Docente. Esta edição reúne contribuições que investigam, problematizam e socializam experiências e reflexões sobre a materialização dos processos matemáticos preconizados pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no cotidiano escolar. Trata-se de uma iniciativa que se inscreve no compromisso histórico desta revista com a produção de conhecimento rigoroso, crítico e socialmente referenciado no campo da Educação Matemática brasileira.
A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no ensino de Matemática tem mobilizado pesquisadores, formadores e professores em todo o Brasil, suscitando debates acerca dos processos matemáticos, como resolução de problemas, argumentação, comunicação, raciocínio, modelagem e pensamento computacional, e de suas repercussões na prática docente. Este Dossiê Temático reúne um conjunto robusto de investigações que, de diferentes ângulos teórico-metodológicos, examinam tensões, potencialidades e desafios na articulação entre as orientações curriculares oficiais e o fazer pedagógico cotidiano, da Educação Infantil ao Ensino Médio.
A BNCC, instituída como documento normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os estudantes devem desenvolver ao longo da Educação Básica, representa um marco na política curricular brasileira. No caso específico da Matemática, a Base não se limita a elencar os conteúdos ou habilidades isoladas, mas propõe uma organização curricular que articula unidades temáticas, objetos de conhecimento e habilidades, mas, sobretudo, evidencia a centralidade dos processos matemáticos como eixos estruturantes do fazer matemático na escola. Tais processos, a saber, resolução de problemas, investigação na sala de aula, modelagem matemática, comunicação e argumentação, não constituem apêndices metodológicos, mas dimensões constitutivas do próprio conhecimento matemático e, portanto, da prática docente.
É precisamente nesse ponto que reside a relevância deste Dossiê histórico. A incorporação dos processos matemáticos pela BNCC desloca o foco do ensino de Matemática da mera transmissão de procedimentos e resultados para a promoção de experiências de aprendizagem nas quais o estudante é convidado a mobilizar, de forma integrada, conceitos, procedimentos e atitudes. Espera-se que o aluno não apenas saiba fazer, mas compreenda por que faz, como faz e para que faz. Essa concepção exige do professor de Matemática um reposicionamento profundo, ou seja, ele deixa de ser o detentor exclusivo do saber para se tornar mediador, provocador e investigador de sua própria prática, um professor insubordinado e criativo.
Contudo, não se pode ignorar que a transposição dos processos matemáticos da BNCC para a sala de aula não é trivial, pois ela envolve tensionamentos, resistências, lacunas na formação inicial e continuada, bem como condições objetivas de trabalho que, muitas vezes, não favorecem práticas investigativas e reflexivas. Destarte, os artigos que compõem este dossiê enfrentam esses desafios com seriedade analítica, oferecendo tanto fundamentação teórica quanto relatos de experiência que iluminam possibilidades concretas de implementação. Ao fazê-lo, os textos publicados contribuem para superar o risco de que os processos matemáticos se tornem apenas mais uma prescrição curricular esvaziada de sentido.
A importância da BNCC, portanto, não reside apenas em sua dimensão normativa, mas em seu potencial de provocar um debate nacional sobre o que significa ensinar e aprender Matemática no século XXI. Assim, ao eleger os processos matemáticos como fio condutor, a BNCC reconhece que a Matemática escolar deve ser um espaço de criação, de questionamento e de construção coletiva de produção de significados. Reiteramos que o professor, nesse cenário, assume um papel estratégico, pois é ele quem interpreta o currículo, adapta-o às realidades locais e o transforma em experiências formativas significativas a partir das leituras que faz acerca das demandas discentes.
Dessa forma, os artigos aqui reunidos refletem essa compreensão, nos convidando a (re)pensar a BNCC não como um fim em si mesma, mas como ponto de partida para uma prática docente mais consciente, intencional e comprometida com a aprendizagem de todos os estudantes.
Que este dossiê possa inspirar professore(a)s, formadore(a)s, pesquisadore(a)s e gestore(a)s a aprofundar o diálogo entre currículo, formação inicial e continuada e prática reflexiva, reafirmando o compromisso da RBEM com uma Educação Matemática que seja, simultaneamente, rigorosa e emancipadora.