Abstract
O artigo analisa o silenciamento do corpo feminino em a Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso, a partir das relações entre identidade de gênero e imagens da loucura, presentes na construção da personagem Nina. O estudo investiga de que maneira a personagem é submetida a processos de exclusão, enquadramento discursivo e controle simbólico, advindos da família Meneses; estrutura marcada por valores patriarcais que determinam modelos específicos de feminilidade. Fundamentado nas contribuições teóricas de Simone de Beauvoir, Judith Butler, Michel Foucault e Julia Kristeva, o trabalho defende que a associação entre Nina e a loucura não decorre de uma condição inerente à personagem, mas constitui um mecanismo discursivo utilizado para silenciar uma subjetividade incompatível com as normas de gênero, legitimadas pelo poder patriarcal. Ao longo da narrativa, Nina tem sua identidade constantemente produzida pelos discursos dos outros personagens, tornando-se alvo de interpretações que procuram enquadrá-la em categorias de desvio, inadequação e anormalidade. Nesse sentido, na análise, a imagem da loucura não conversa com critérios biológicos, mas com estratégia de controle social que, desde sempre, tentar excluir e silenciar vozes que desafiam padrões estabelecidos.