Abstract
A elaboração de inventários de gases de efeito estufa (GEE) constitui instrumento fundamental para a gestão ambiental e para o atendimento a exigências legais, normativas e de mercado. Entretanto, parte relevante dos inventários organizacionais ainda é apresentada de forma determinística, sem explicitar as incertezas associadas aos dados de atividade, fatores de emissão e demais parâmetros utilizados, o que pode limitar a interpretação, a comparabilidade e a confiabilidade dos resultados. Nesse contexto, o estudo avaliou o impacto da inclusão da análise de incertezas em um inventário organizacional real, adotando como estudo de caso o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), no ano-base de 2024. O inventário foi elaborado conforme o Programa Brasileiro GHG Protocol e a avaliação das incertezas baseou-se nas diretrizes do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), na ABNT NBR ISO 14064-1:2022 e no Guide to the Expression of Uncertainty in Measurement (GUM), com aplicação da Abordagem 1 de propagação analítica e predominância de avaliações Tipo B. As emissões totalizaram 354,57 tCO₂e, com incerteza global de ±16,10%, equivalente a ±57,08 tCO₂e. O Escopo 1 apresentou incerteza de ±10,07%, o Escopo 2 de ±4,60% e o Escopo 3 de ±22,94%. Os resultados demonstram que a apresentação isolada do valor determinístico pode fornecer percepção incompleta sobre a qualidade da estimativa. Conclui-se que a incorporação sistemática das incertezas amplia a robustez, a transparência, a rastreabilidade e a utilidade gerencial dos inventários de GEE, além de evidenciar prioridades de melhoria dos dados e lacunas metodológicas ainda existentes no contexto brasileiro.