Abstract
O artigo analisa a evolução dos principais marcos legais e normativos que incidiram sobre o ensino de Ciências na Educação Básica brasileira entre 2006 e 2026, interrogando não apenas o que foi acrescentado ao ordenamento educacional, mas as concepções de ciência, currículo, investigação, tecnologia, cidadania e formação docente que atravessam esse percurso. Trata-se de pesquisa qualitativa, documental e interpretativa, cujo corpus reúne diretrizes nacionais da Educação Básica e do Ensino Fundamental, a Base Nacional Comum Curricular, normas relativas ao Ensino Médio, à Computação na Educação Básica, à Política Nacional de Educação Digital, à formação docente, à inclusão das perspectivas femininas nos currículos, à educação digital e midiática e ao Plano Nacional de Educação aprovado em 2026. A análise identifica um processo de densificação normativa: o ensino de Ciências passa a ser progressivamente relacionado à alfabetização científica, à investigação, à argumentação, à compreensão das relações entre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente e, mais recentemente, à cultura digital, aos algoritmos, aos dados e à inteligência artificial. O estudo sustenta, entretanto, que densidade normativa não equivale a efetividade pedagógica. A realização das finalidades atribuídas ao ensino de Ciências depende de formação docente consistente, infraestrutura, tempo curricular, acesso a materiais, condições de investigação e capacidade das redes de transformar prescrições nacionais em experiências de aprendizagem intelectualmente exigentes e socialmente significativas. Conclui-se que os últimos vinte anos ampliaram o conteúdo público do direito à educação científica, mas também tornaram mais visível a distância entre o currículo prescrito e as condições concretas de sua realização.