Abstract
A agricultura familiar brasileira constitui uma realidade complexa, marcada pela articulação entre trabalho, natureza, cultura, relações comunitárias e diferentes formas de conhecimento. Entretanto, sua compreensão acadêmica frequentemente permanece vinculada a perspectivas econômicas, produtivistas e técnico-instrumentais, que podem reduzir ou invisibilizar dimensões culturais e simbólicas presentes no cotidiano rural. Diante disso, este artigo tem como objetivo compreender a agricultura familiar para além de sua dimensão produtiva, estabelecendo conexões entre natureza, trabalho e cosmovisão popular a partir das perspectivas da mestiçagem e do Barroco Cognitivo de Amálio Pinheiro. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, exploratória e analítico-descritiva, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e documental, articulada ao resgate de memórias e experiências vivenciadas em comunidade rural. A análise de conteúdo da literatura selecionada foi organizada a partir de categorias relacionadas à epistemologia, à mestiçagem e ao barroco, buscando identificar como os estudos sobre agricultura familiar abordam e interpretam os saberes e práticas camponeses. Os resultados evidenciam uma tensão entre a multiplicidade e a heterogeneidade das experiências rurais e a utilização de modelos teóricos rígidos e universalizantes. Conclui-se que a agricultura familiar constitui um fenômeno multidimensional, cuja compreensão demanda perspectivas capazes de reconhecer a integração entre saberes, práticas, cultura, natureza e relações sociais, valorizando as especificidades e contradições que caracterizam o rural brasileiro.