Abstract
Redes sociais e inteligência artificial chegaram à escola brasileira por caminhos opostos, as primeiras por adoção espontânea dos próprios sujeitos, a segunda por indução de política e de mercado, mas interpelam hoje o mesmo professor. Este ensaio sustenta que o debate corrente sobre essa incorporação está mal formulado ao organizar-se em torno da alternativa entre adotar e recusar, pois essa oposição não distingue arranjos pedagogicamente opostos que empregam a mesma ferramenta. Propõe-se, como critério de leitura, a distinção formulada por Papert em 1980 entre usar o computador para programar a criança e fazer com que a criança programe o computador, aqui transposta para a posição do professor: operador de tecnologia ou arquiteto de experiências de aprendizagem. Metodologicamente, trata-se de ensaio teórico apoiado em mapeamento exploratório conduzido na base OpenAlex em junho de 2026, que documenta a lacuna: enquanto o cruzamento entre formação docente e inteligência artificial recupera 2.192 trabalhos e o cruzamento entre formação docente e redes sociais recupera 602, na interseção dos três descritores recupera 34. Argumenta-se que o critério proposto tem valor discriminante por não coincidir com a fronteira entre as tecnologias, há uso de redes sociais inteiramente instrucionista e há uso de inteligência artificial que coloca o docente na posição de quem projeta. Sustenta-se, ainda, que quatro fontes independentes, de contextos, décadas e métodos incomparáveis, convergem para o mesmo eixo, o que sugere que ele capta uma regularidade e não uma preferência do analista. Conclui-se discutindo o que esse deslocamento implica para a formação docente no Brasil, em que a desigualdade de infraestrutura torna a formação instrumental mais atraente justamente onde ela é mais danosa.