Abstract
Este estudo problematiza o fenômeno reborn como expressão do simulacro do cuidado infantil na sociedade brasileira contemporânea. A análise fundamenta-se em contribuições de pensadores da cultura contemporânea, com especial destaque para o conceito de hiper-realidade, entendido como condição que favorece a produção de simulacros e a construção de representações idealizadas, assépticas e artificializadas da infância. Nessa perspectiva, a ocorrência dos bebês reborn revela aspectos de uma realidade cultural marcada pelo esvaziamento simbólico das relações e pela intensificação de experiências mediadas por representações artificiais. Tal manifestação social suscita questionamentos acerca das dimensões relacionais, dialógicas e de alteridade que constituem a experiência humana, uma vez que as práticas de cuidado dirigidas aos bebês reborn se estabelecem de forma unilateral, tendo como objeto figuras inanimadas que apenas reproduzem a aparência da vida. Embora possa ser compreendido como uma atividade aparentemente inofensiva e capaz de proporcionar satisfação emocional a adolescentes, jovens e adultos, essa tendência também evidencia tensões éticas características da contemporaneidade. Nesse sentido, ultrapassa os limites do jogo, da brincadeira ou do colecionismo, ao expressar processos de mercantilização dos afetos e de substituição das relações humanas por vínculos imaginários mediados pelo consumo. Assim, o cuidado, o afeto e a própria experiência relacional tendem a ser convertidos em produtos simbólicos, inseridos na lógica de mercado que caracteriza as sociedades capitalistas contemporâneas.