Abstract
Esta resenha crítica examina a crise contemporânea da democracia liberal a partir de um diálogo entre Byung-Chul Han, em Infocracy: Digitization and the Crisis of Democracy, e Daron Acemoglu, em What Happened to Liberal Democracy?: Remaking a Politics of Shared Prosperity. Parte-se da hipótese de que ambos os autores descrevem dimensões complementares de uma mesma mudança de época: Han enfatiza a transformação informacional, algorítmica e subjetiva da esfera pública, enquanto Acemoglu analisa a erosão das bases econômicas e sociais que sustentaram a legitimidade liberal-democrática. A análise articula esses diagnósticos à noção de Zeitgeist e à metáfora de Macondo, de Gabriel García Márquez, para discutir a dificuldade epistemológica de nomear uma transformação histórica enquanto ainda estamos imersos nela. Em diálogo adicional com Habermas, Levitsky e Ziblatt, Mouffe, Neves, Norris e Inglehart e Zuboff, sustenta-se que desigualdade, tecnologia, fragmentação comunicacional, crise das mediações, conflito político e concentração de poder não constituem explicações concorrentes, mas dimensões interdependentes de uma constelação histórica emergente. Conclui-se que o presente pode ser compreendido como um interregno no qual categorias e instituições herdadas permanecem operantes, embora já não organizem plenamente a experiência social. Nomear esse tempo exige, portanto, conceitos fortes, porém provisórios, capazes de orientar a compreensão sem transformar tendências ainda abertas em destinos históricos definitivos.