Abstract
Consideraremos a representação do feminino na obra de Florbela Espanca, cuja produção foi considerada marginal em seu tempo e destoante, inclusive, da produção da vanguarda portuguesa. Uma das explicações é a da singularidade da experiência e visão feminina da autora, refletida, como é natural, em sua obra. A outra concerne ao estabelecimento do cânone literário, que prioriza a produção masculina, em detrimento da feminina, dificultando tanto o acesso da autora aos meios de edição e de propagação, ainda em sua vida, quanto de difusão no meio acadêmico e no círculo de leitores, mesmo em nossos dias. Se quisermos fazer uma leitura da condição feminina na poesia de Florbela, devemos levar em conta tanto sua singularidade quanto ao gênero (em diálogo com outros escritos de mulheres) quanto sua relação com a literatura portuguesa masculina, por comparativismo, portanto (sobretudo com um dos órficos – Sá-Carneiro). Isto porque não se pode pensar em singularidade exacerbada, o que tangeria ao exotismo, ao desvínculo histórico-social e, provavelmente, ao efêmero, mas também não se pode tão-somente desejar a integração da literatura feminina ao cânone masculino, sob pena de se incorrer em semelhante equívoco. A poesia de Florbela Espanca, como se notará, transita entre o ascensional e o descensional, típicos também da primeira geração modernista, perdendo-se do limiar entre o nada e o todo ansiado, entre o real e o imaginário. Isto demonstra a impossibilidade de um media res e da comunicação com seu tempo, ratificando o anseio de absoluto do ser português.