Abstract
O texto analisa o papel do Boletim de Ocorrência (BO) na construção de sentidos sobre a violência doméstica contra a mulher e enfatiza a dimensão discursiva, social e jurídica. Utiliza também a abordagem da Análise do Discurso e da Semântica de Contextos e Cenários ao evidenciar como a linguagem empregada nesses documentos institucionaliza e naturaliza determinadas representações, influenciando percepções, decisões jurídicas e práticas sociais. Destaca-se que as escolhas lexicais e narrativas presentes nos BO, muitas vezes, carregadas de acentos avaliativos e estereótipos de gênero, reforçam estereótipos, minimizam a gravidade da violência e fragilizam a credibilidade da vítima. Além disso, o estudo aponta que essa construção discursiva atua como mecanismo de controle social, perpetuando desigualdades de poder e naturalizando formas de violência, mesmo após a sua formalização. A narrativa oficial tende a reforçar papéis tradicionais de gênero e a invisibilizar a complexidade da experiência da mulher, contribuindo para a revitimização e dificultando o acesso à justiça. Assim, a análise evidencia a necessidade de uma reflexão crítica sobre a linguagem institucional, visando práticas mais sensíveis às experiências das vítimas e ao enfrentamento efetivo da violência de gênero.
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