Abstract
Introdução: A estimulação elétrica neuromuscular (NMES) produz contrações musculares por ativação elétrica de estruturas neuromusculares. Quando a contração evocada é coordenada com uma tarefa motora, a aplicação pode ser descrita como estimulação elétrica funcional (FES). Associadas a movimentos voluntários e, de modo individualizado, à resistência externa, frequência, largura de pulso, intensidade, tempos de contração e recuperação e padrão de movimento compõem um estímulo integrado. Além das respostas locais, o músculo em contração participa da regulação metabólica e da sinalização endócrina por vias que incluem AMPK, Ca²⁺, PGC-1α e miocinas como IL-6.Objetivo: Descrever as alterações ultrassonográficas da espessura do tecido adiposo subcutâneo abdominal observadas em três participantes submetidos a oito sessões de FES associada a movimentos concêntricos e excêntricos durante quatro semanas, e discutir a plausibilidade fisiológica local e sistêmica do estímulo contrátil.Métodos: Série de três casos, composta por três participantes do sexo masculino, com 31, 30 e 30 anos. Foram realizadas duas sessões semanais: uma sessão com 20 Hz, destinada predominantemente a membros inferiores e abdômen, e uma sessão com 80 Hz, destinada predominantemente a membros superiores, tronco e abdômen. Utilizou-se largura de pulso de 350 µs, quatro ciclos, períodos de 60 s de atividade e 70 s de recuperação, rampas de subida e descida de 7 s em 20 Hz e de 5 s em 80 Hz, movimentos concêntricos e excêntricos e introdução de resistência externa a partir do segundo ciclo conforme qualidade de execução e tolerância. A intensidade foi ajustada individualmente até a obtenção de contração muscular visível e compatível com o objetivo de cada programação, respeitando o limite de tolerância de cada participante. Nas sessões de 20 Hz foram empregados níveis relativamente menores de intensidade, dentro de uma estratégia de contrações sustentáveis e menor demanda mecânica; nas sessões de 80 Hz, a intensidade foi elevada individualmente para produzir contrações mais vigorosas, sem ultrapassar a tolerância. A espessura adiposa abdominal foi avaliada por ultrassonografia de imagem em ponto padronizado a 7 cm da linha umbilical no plano horizontal, antes e após a intervenção, utilizando-se o mesmo equipamento e o mesmo protocolo de aquisição nas duas avaliações.Resultados: Os três participantes apresentaram redução da espessura adiposa no ponto ultrassonográfico avaliado após quatro semanas. As médias inicial e final foram, respectivamente: Paciente 1, 6,70 e 4,93 mm (−1,77 mm; −26,4%); Paciente 2, 11,90 e 9,50 mm (−2,40 mm; −20,2%); e Paciente 3, 18,35 e 13,00 mm (−5,35 mm; −29,2%).Conclusão: Observou-se redução ultrassonográfica da espessura adiposa abdominal nos três participantes após o protocolo. O delineamento não permite estabelecer causalidade nem determinar os mecanismos responsáveis. AMPK, sinalização por Ca²⁺, oxidação de substratos, PGC-1α e IL-6 muscular constituem mecanismos plausíveis para investigação direta em estudos controlados.